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Domingo com a camisa suja de molho

O almoço atrasa, a criança se lambuza e a foto sai tremida. É exatamente assim que fica bom.

por Thais · 6 de setembro de 2026

Domingo aqui em casa começa atrasado. Sempre.

O almoço que era pro meio-dia sai às duas. Alguém chega antes da hora e me pega de pijama. A criança que eu vesti bonitinha às dez já está com a barriga suja de molho às dez e vinte.

E todo domingo, por uns dez minutos, eu fico irritada com isso.

Depois passa. E fica a parte boa.

A produção que ninguém pediu

Eu já fui daquelas de montar o domingo inteiro na cabeça na sexta.

A mesa combinando, a roupinha escolhida, a sobremesa que dá trabalho, a casa arrumada antes de todo mundo chegar. E eu correndo por trás disso tudo, tensa, cobrando de mim uma cena que só existia na minha cabeça.

Sabe o que acontecia? Eu passava o domingo inteiro trabalhando no domingo. E não vivia nenhum minuto dele.

No fim do dia eu estava exausta e meio triste, sem saber explicar por quê. Todo mundo tinha se divertido. Menos eu.

Aí eu comecei a prestar atenção no que as pessoas comentavam depois. Ninguém falava da mesa. Ninguém falava da toalha nova.

Falavam do bolo que afundou no meio. Da hora em que o cachorro roubou o pão. Do primo que dormiu no sofá com a boca aberta e virou piada do ano.

A questão é outra, viu. O que fica de um domingo nunca é a parte que deu certo.

A roupa que vai sujar mesmo

Eu demorei pra aceitar uma coisa simples: roupa de criança em dia de família vai sujar.

Não é possibilidade. É calendário.

Vai ter molho, vai ter suco, vai ter grama, vai ter alguém oferecendo brigadeiro escondido. E se eu vou passar o almoço inteiro dizendo "cuidado com a roupa", eu não estou cuidando da roupa. Estou cuidando da minha imagem, e usando a criança pra isso.

Isso me caiu como um tijolo no dia em que a minha filha pediu pra descer da mesa e ficar longe da comida "pra não sujar". Ela tinha três anos e já estava com medo de estragar o domingo.

Naquele dia eu virei a chave.

Hoje eu escolho a roupa por outro critério. Não pergunto se está bonita pra foto. Pergunto se ela pode correr com isso. Se ela vai conseguir sentar no chão. Se eu vou conseguir tirar a mancha sem tratar aquilo como tragédia.

Roupa boa de domingo é roupa que aguenta o domingo.

A foto que não sai

E tem a foto.

Toda família tem aquela tentativa. Todo mundo junto, alguém segurando o celular no braço estendido, alguém gritando "olha aqui", a criança olhando pro lado, o bebê chorando, o avô piscando.

Você tira dezessete e não gosta de nenhuma.

Eu tenho uma pasta cheia dessas. E olha, eu adoro essa pasta.

Porque a foto perfeita é a foto de um segundo que não existiu. E a foto tremida é o registro do domingo de verdade. Daquele barulho, daquela bagunça, daquela mesa lotada.

Daqui a vinte anos ninguém vai olhar essas fotos procurando enquadramento. Vão olhar procurando gente. Quem estava vivo, quem estava junto, quem estava ali.

E aquele borrão em movimento no canto vai ser a coisa mais bonita da imagem, porque era o seu filho correndo.

O que vale a pena preparar

Não estou dizendo pra abandonar tudo. Não é isso não.

Eu ainda faço uma comida que gosto. Ainda ponho a casa em ordem. Mas eu passei a preparar outras coisas.

Preparo um lugar no chão onde as crianças possam brincar sem ninguém pisando nelas. Preparo uma toalha velha embaixo da cadeira do menor. Preparo um pano na cozinha que eu não vou sentir falta se manchar.

Preparo, principalmente, a minha cabeça. Combino comigo mesma que vai atrasar, que vai sujar e que alguém vai falar besteira na mesa.

Quando eu já sei disso antes, nada disso estraga o meu dia.

E aí sobra espaço pra parte que importa. Sentar. Comer devagar. Ouvir a história repetida do seu pai pela quadragésima vez. Ver os primos brigando por um brinquedo e resolvendo sozinhos dois minutos depois.

No fim, quando todo mundo vai embora e a casa fica em silêncio com a pia cheia, você senta um pouco no sofá.

Cansada, mas de um jeito bom.

Esse cansaço aí é o troféu do domingo. Ele só chega pra quem participou em vez de produzir.

Domingo que dá certo é domingo que dá trabalho de limpar depois.

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